Blog Conversas Visuais/MARCIA MEC


03/05/2008


 

  JORGE LUIZ BORGES

Borges não viveu o que escreveu, mas escreveu o que viveu, como qualquer outro

Algumas maldições pesaram sobre a cabeça do argentino Jorge Luís Borges, enquanto ele viveu.

O Prêmio Nobel de Literatura lhe foi negado por causa de seu anarquismo, interpretado como fascismo pela esquerda dominante nos meios intelectuais e universitários.

Outra maldição, menos pesada, mas nem por isso menos falsa, foi a de que sua obra não abordava assuntos sociais, mas labirintos, espelhos e tigres, temas muito distantes da miséria real de seu continente.

[TEXTO DE José Nêumanne, jornalista, poeta, escritor e editorialista do "JT" ]

******** -:¦:- ********

O relativismo de Borges é absoluto. (...) Borges, visionário céptico, encanta-nos até quando aceitamos a sua advertência: a realidade cede demasiado facilmente. (Harold Bloom)

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Bem no fundo do sonho estão os sonhos. A cada
Noite quero perder-me nas águas obscuras
Que lavam o dia, mas sob essas puras
Águas que nos concedem o penúltimo Nada
Pulsa na hora cinza o obsceno portento.
Pode ser um espelho com meu rosto distinto,
Pode ser a crescente prisão de um labirinto
Ou um jardim. O pesadelo sempre atento.
Seu horror não é deste mundo. Causa inominada
Alcança-me desde ontens de mito e de neblina;
A imagem detestada perdura na retina
A infama a vigília como a sombra infamada.
Por que brota de mim, quando o corpo repousa
E a alma fica só, esta insensata rosa?

Jorge Luis Borges

Escrito por marcia mec às 22h59
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  NÉLIDA PIÑON

"Somos filhos de utopias fracassadas, mas também construtores de novas utopias."

Nélida Piñon

 jornalista, romancista, contista, professora, ocupa Cadeira n. 30, na ABL.

Nélida Piñon, esta eminente escritora que se caracteriza no panorama da literatura brasileira por seu fôlego, originalidade e força de expressão. Integrante da Academia Brasileira de Letras - cadeira nº 30 - desde 1989, foi eleita, por unanimidade, presidente da “Casa de Machado de Assis” de 1996 a 1997, sendo a primeira mulher a presidir uma academia literária nacional. Nélida Piñon é Doutora honoris causa em universidades da França, Canadá e Espanha; já recebeu destacados prêmios literários como o Juan Rulfo, o Ibero-Americano de Narrativa Jorge Isaacs , o da Associação de Críticos de Arte do Brasil e o prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, o primeiro de 2005 concedido a um escritor latino-americano.
Sua obra:
Guia mapa de Gabriel Arcanjo, romance - 1961
Madeira feita cruz, romance - 1963
Tempo das frutas, contos - 1966
Fundador, romance - 1969
A casa da paixão, romance - 1972
Sala de armas, contos - 1973
Tebas do meu coração, romance - 1

Escrito por marcia mec às 22h47
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Ai!cai

 



Signos que ficam – faço!
Porém, signo dos signos,
    Não fico – passo.

                 Décio Pignatari

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Poeta, semiólogo, ensaísta e teórico da comunicação, o paulista Décio Pignatari é um dos fundadores do concretismo.

Escrito por marcia mec às 22h21
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Vimos, então,
que poderíamos ser
mais do que reflexos
um do outro,
mais do que anseios
a preencherem des
-vãos devaneios
brechas,
ou estabelecerem
decretos.
Adentramos, um ao outro,
pelo avesso do que
vivemos,
ambos,
adentramos o mundo
pelo não-ainda,
pelo espaço ausente,
pelo assim-quem-sabe.
Descobrimo-nos
antevimo-nos para além
das substâncias perscrutadas,
no escrutínio de um amor-em
-falta,
e ele nos revelou um ao
outro, ambos ao mesmo
tempo, dentro de um
mesmo e único uni
-verso

 

Marcelo Novaes

Escrito por marcia mec às 22h06
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01/05/2008


Ezra Pound

Se alguém merece encarnar a figura do poeta seminal do nosso século, como Poe no século passado este é sem dúvida Ezra Pound, com sua  obra de amplo espectro, sua permanente devoção à causa da poesia, sua generosa atividade  em prol de tantos escritores e artistas modernos, como James Joyce, T.S.Eliot, Yeats, Hemingway, Antheil, Gaudier-Brzeska.

"Ele foi para a poesia deste século o que Einstein foi para a física", disse E.E.Cummings, corroborado por Hemingway: "Um poeta deste século que afirme não ter sido influenciado por Ezra Pound merece mais a nossa piedade que a nossa reprovação".

saber mais

(trecho de um comentário de Haroldo de Campos
extraído do livro: Ezra Pound - Poesia)

 
 


 

 


itfrases.gif (1672 bytes)

"Minhas  intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou
tarde demais...Muito tarde me
chegou a certeza de nada saber..."

 

itfotos.gif (2454 bytes)

Ezra Pound (1908-1910)
Ezra Pound
Ezra Pound (libertado em 1958)
Ezra Pound (81 anos em 1967)

 

Ezra Pound
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ezra Pound

ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(tradução de Augusto de Campos)

 

E ASSIM EM NÍNIVE

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

(tradução de Augusto de Campos)

 

SAUDAÇÃO

Oh geração dos afetados consumados
          e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
          e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
          e não possuem nem o que vestir.

(tradução de Mário Faustino)

 

SAUDAÇÃO SEGUNDA

Fostes louvados, meus livros,
           porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
           e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
           Não renegueis vossa progênie.

Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:

"Então é isto", dizem eles, "o contra-senso
            que esperamos dos poetas?"
"Onde está o Pitoresco?"
            "Onde a vertigem da emoção?"
"Não ! O primeiro livro dele era melhor."
            "Pobre Coitado ! perdeu as ilusões."

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !

Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guisos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
          Ide com vaias e assobios !

Dançai a dança do phallus
          contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !

Levantai as saias das pudicas,
          falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
          e que viverei eternamente.

(tradução de Mário Faustino)

 

TENZONE

Será que as aceitarão ?
          (i.é., estas canções).
como tímida fêmea perseguida por centauros
          (ou por centuriões),
Elas já vão fugindo, urrando de terror.

Ficarão comovidos pelas verossimilitudes ?
           Sua estupidez é virgem, é inviolável.
Eu vos imploro, meus críticos amistosos,
Não saiais por aí procurando-me um público.

Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos;
             os recessos ocultos
Já têm ouvido o eco de meus calcanhares
             na frescura da luz
             e na escuridão.

(tradução de Mário Faustino)

 

 

Escrito por marcia mec às 21h05
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escrever
seguir o curso
entre a surpresa e o susto

ler as entrelinhas
como o vento nos arbustos


alexandre brito

de O Fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br

Escrito por marcia mec às 20h53
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Post-scriptum / Baudelaire

 

Paul Valéry em “Situação de Baudelaire”, ensaio onde situa e recorta a singularidade do autor das Flores do mal contra um pano-de-fundo romântico, que à época experimentava o seu auge, sustenta que “com Baudelaire a poesia francesa ultrapassa as fronteiras da nação. Ela - continua Valéry - é lida no mundo inteiro”. Baudelaire consegue essa proeza, segundo o autor de Ébauch d’Un Serpent, porque sua poesia não dá continuação a alguns dos traços da tradição literária/cultural francesa, tais como: o medo do exagero e do ridículo; um certo pudor na expressão (poder de expressão?); a tendência abstrata do espírito; as harmonias sutis demais; uma elegância e uma pureza excessivas no trato do discurso, etc. Assim, por ser a linguagem de Baudelaire (contente de tropeçar “sur les mots comme sur les pavês”, isto é, mais suja) algo refratária a essas “manias” congeniais à língua e ao gênio franceses, ela “impõe-se como a poesia própria da modernidade”. E a modernidade está marcada por essas transações de fronteira. Transculturações. Baudelaire importa e incorpora, por exemplo, a poética de Poe para, mais adiante, num movimento de assimilação ou de plagiotropia, fazer a sua “poesia de exportação” (gr. plágios, a, on 'oblíquo, que não está em linha reta, que está de lado; transversal) - tomamos de empréstimo, aqui, as célebres noções da antropofagia cultural do poeta do modernismo de 22, Oswald de Andrade

Escrito por ronald augusto

Escrito por marcia mec às 20h39
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27/04/2008




Quisera eu, Hilda,
poder tirar a pérola do musgo
do limo do limbo onde quiseram
deixá-la.
Tua obra agora aberta descoberta
depois da morte.
Triste, frívolo,
previsível,
indigno do teu dedo em riste e da
bata e do roupão puídos de tua
velhice.
Obra menos que valorizada em
vida. Talvez a obra-prima mais
subestimada.
Até disseram que a maldição a
proscrição te fez ímpar,
te fez até maior poeta à
tua revelia,
que o desprezo te fez mais
bela, enquanto envelhecia.
E que, por ninguém te ler,
por desmerecê-la a turba
anêmica dos intelectuais e
estetas que te detestaram,
e te chamaram fraude,
cresceste mais,
arrancaste energia achaste
energia dentro de ti
para escrever sem
desistir,
e que levaste pra tumba
uma dignidade mais plena.
É o consolo que te imputam
os que te sabotaram e te con
-sideraram puta, os embotados
os preguiçosos os míopes de lupa
e sem número de notas de rodapé
que não te podiam seguir a pé
nem em tua montaria,
maior poeta que este país já viu
nascer.
Quando quis popularizar-se para
ser lida,
jogando pérolas pornográficas
eruditas
para os que nunca haviam sabido
de tuas letras,
manteve o nível, a despeito da
tentativa.
Porque Hilda não pôde fugir trair
não pode sair de si, deixando de
ser Hilda,
mesmo na tentativa de ser comida
devorada digerida destroçada e
transformada em pasto para bodes
bois vacas e cabritas, e para as massas
informes e desinformadas.
Fracassou a tentativa de ser
célebre e fracassada enquanto
artista.
Tua sede de leitor permaneceu
sede.
Tua solidão permaneceu
só.
Há um sentimento de triunfo
subjacente a tudo isso, e ele
sobrevive e permite que teus
textos sejam lidos com vinte
trinta ou cinquenta anos de
atraso.
O triunfo de ter mantido tua
escrita intacta mesmo sem ser
lida, por brio fidelidade e
extremo senso de medida,
e absoluta auto-consciência
de teu nível.
Ave, Hilda, ave ávida trans
-figurada pelo olhar medíocre
em cadela mal-parida,
vira-lata,
acompanhada por seus cães
pernetas, cegos, desdentados,
em sua chácara um tanto afas
-tada dos grandes centros, a
cento e cinquenta quilômetros
de Campinas.
Ave, Hilda,
e que os cegos venham,
agora,
lamber tuas
feridas.








Marcelo Novaes

Escrito por marcia mec às 02h15
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BRASIL, Mulher, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Livros, Arte e cultura

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