Blog Conversas Visuais/MARCIA MEC


29/05/2008


 

 

Olho



Segue a nave de silêncio
por sobre o que nós somos
e fizemos.



Segue ela com as espáduas
apoiadas nas nuvens,
aprendendo a respirar
e a nadar de costas.



Segue a nave sabendo-se
grandiosa por sobre a nossa
história, como um olho solitário
e sem pálpebra.


marcelo noves! hoje comemoramos 200!postagens em seu blog

http://olugarqueimporta.blogspot.com/

Escrito por marcia mec às 20h03
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27/05/2008


Escrito por marcia mec às 21h14
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LEITURA VIVA

A leitura equívoca; a leitura à revelia das boas ou más intenções do autor; a leitura que “está andando”, que manda o autor passear; a leitura feita em decúbito dorsal ou ventral; a leitura que se faz na rede, pênsil entre uma árvore e outra, que se faz no ônibus, no metrô; a leitura que se faz (se desfaz) quando não se tem um tostão no bolso, quando se padece de uma afecção respiratória; a leitura que se faz quando se está às turras com a patroa ou de bem com o seu bem, etc, etc, etc.

 

Escrito por marcia mec às 20h07
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primeiro mafuá de malungo




Com a benção de Manuel Bandeira, o projeto Mafuá de Malungo começou, e muito bem. No último dia 9 de abril, a Palavraria - Livraria-café abriu suas portas para a artista visual e poeta, Dione Veiga Vieira, a convidada de abertura do Mafuá. A trajetória criativa de Dione Veiga Vieira, não sei se devido a essa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, torna-se instigante, pois, sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam tanto suas obras plásticas quanto o seu Matiz de Estação (1983), infelizmente, diga-se de passagem, seu único livro até agora. O apetite demonstrado por Dione Veiga pelo poema na pele de coisa encarnada, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão, talvez se explique pelo viés da porção artista visual de sua personalidade. No link abaixo, outros detalhes do que foi a primeira noite do Mafuá:
O projeto Mafuá de Malungo, prevê um encontro por mês até o final desse ano, ocasião em que o poeta (o filósofo, o músico, o artista, etc) convidado conversará comigo e com audiência a respeito de suas obras. Eduardo Degrazzia, Oliveira Silveira, Ricardo Silvestrin, Marcelo Delacroix, Alexandre Brito, entre outros, são alguns dos malungos confirmados para os bate-papos dos próximos encontros.

Sunday, April 06, 2008

a propósito de machado de assis

documento

san juan de la
cruz por conta do sono
nisso sua alma (alta ou
baixa? maria benedita)
risonha entre vivências a
serviço do amor sem souto à vista

e segue do joio à sevícia da alegria ou
alegre porque joeirar é vetor de viço
de joelhos num fisgar de olhos
frente ao senhor
seu peixe (carlos maria?) carillo il
tuo gran cazzo all’anima
mi va

Escrito por marcia mec às 20h04
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para quem não esteve no mafuá


fotos: jane machado

Numa época em que a prática da autopromoção faculta a muito poeta de segunda categoria um lugar de destaque no florilégio medíocre das letras “locais” (Porto Alegre), o silêncio vil e incivil em torno do nome de Oliveira Silveira - sem esquecer que para isso contribui a sua orgulhosa e solitária modéstia - pode ser interpretado como um sinal de distinção. Em resumo: quem não leu ainda a poesia de Oliveira, seja por imperícia, seja por má-fé, que não atrapalhe.

2 poemas de Oliveira Silveira

OBRIGADO, MINHA TERRA

Obrigado rios de São Pedro
pelo peso da água em meu remo.
Feitorias do linho-cânhamo
obrigado pelos lanhos.
Obrigado loiro trigo
pelo contraste comigo.
Obrigado lavoura
pelas vergas no meu couro.
Obrigado charqueadas
por minhas feridas salgadas.
Te agradeço Rio Grande
o doce e o amargo
pelos quais te fiz meu pago
e as fronteiras fraternas
por onde busquei outras terras.
Agradeço teu peso em meus ombros
músculos braços e lombo.
Por ser linha de frente no perigo
lanceando teus inimigos.
Muito obrigado
pelo ditado
“negro em posição
é encrenca no galpão”.
Obrigado pelo preconceito
com que até hoje me aceitas.
Muito obrigado pela cor do emprego
que não me dás porque sou negro.
E pelo torto direito
de te nomear pelos defeitos.
Tens o lado bom também
- terra natal sempre tem.
Agradeço de todo o coração
e sem nenhum perdão.

(Pêlo escuro, 1977)


UM CHARQUE

um charque esta alma retalhada
um charque esta alma ressequida
um charque esta alma aqui
um charque

charque sal
charque sol
charque sul

esta carne rasgando-se sem lâmina
este sangue ancestral ferido ardendo
esta alma negra sal e sol nos lanhos
um charque

charque sal
charque sol
charque sul

você sabe uma faca abrindo fendas
na carne um raio um terremoto um mar
de sangue pelo meio uma alma repartida
um charque

charque sal
charque sol
charque sul


(Pêlo escuro, 1977)


Escrito por marcia mec às 20h01
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26/05/2008


 

 BENJAMIN PÉRET

benjamin Péret nasceu na França em 1899. Aderiu ao surrealismo na década de 20, após breve militância no movimento Dada, ao mesmo tempo que se associava ao Partido Comunista com o qual veio a romper mais tarde. Em 1924 dirigiu, com Pierre Naville, La Revolución Surrealiste e publicou os poemas D’Immortale Maladie. Viajou para o Brasil em 1929, militando no grupo trotskista local. Casado com a cantora brasileira Elsie Houston, foi deportado do Brasil em 1931. Data dessa época a destruição, pela polícia getulista, do livro O Almirante Negro. Entre 1936 e 1937 lutou em Espanha contra o franquismo, vindo posteriormente a refugiar-se no México. Já na década de 50, regressou ao Brasil. Escreveu sobre culturas indígenas e produziu uma obra poética e ensaística singular, reunida em vários volumes após a sua morte em 1959.

Escrito por marcia mec às 02h18
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Piscada
(Benjamin Peret - Editions Surrealistes-Paris: 1936)


Bandos de papagaios atravessam minha cabeça
Quando te vejo de perfil
E o céu de banha estria-se de relâmpagos azuis
Que traçam teu nome em todos os sentidos
Rosa penteada de tribo negra perdida numa escada
Onde os seios agudos das mulheres olham pelos olhos dos homens
Hoje eu olho pelos teus cabelos
Rosa de opala da manhã
E desperto pelos teus olhos
Rosa de armadura
E penso pelos teus seios de explosão
Rosa de lagoa esverdeada pelas rãs
E durmo no teu umbigo de mar Caspio
Rosa de rosa do mato durante a greve geral
E me perco entre teus ombros de via lactea fecundada por cometas
Rosa de jasmim na noite da lavagem dos linhos
Rosa de casa assombrada
Rosa de floresta negra inundada de seios azuis e verdes
Rosa de papagaio-de-papel sobre um terreno baldio onde brigam crianças
Rosa de fumaça de charuto
Rosa de espuma de mar feita cristal
Rosa

Escrito por marcia mec às 02h01
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Se
Alice Ruiz

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

Escrito por marcia mec às 23h48
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25/05/2008


Entre ir e ficar

Octavio Paz

Entre ir e ficar duvida o dia,
enamorado de sua transparência.

A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.

Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.

Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa

Escrito por marcia mec às 19h50
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Octavio Paz

Octavio Paz

Nasceu na Cidade do México (México) em 1914. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1990. Foi poeta, ensaísta e ardente antifascista nos anos anteriores e durante a Segunda Guerra Mundial, nessa época escreveu a coleção de poemas "Bajo tu Clara Sombra". Manteve contato com personalidades importantes como Pablo Neruda, Xavier, Albert Camus, entre outros. Cultivou o surrealismo e sua obra poética tem importância, não só como poesia, mas como reflexão sobre todo âmbito da ocupação poética. Seu interesse pelas culturas primitivas levou-o em 1951 à Índia, onde viveu durante anos, como embaixador. Renunciou em 1968, em sinal de protesto ao massacre na Praça das Três Culturas (Tlatelolco), quando o governo mexicano reprimiu à bala manifestação estudantil durante os Jogos Olímpicos. Entre seus trabalhos poéticos de fim de século estão: "La Llama Doble"; "Amor y Erotismo"; "Vislumbre de la India". Nos últimos anos, de sua vida, publicou intensamente, interveio (não para a alegria de todos) nos rumos de seu país, organizou suas obras completas, acrescentou-lhe, poemas, ensaios e memórias. Morreu na capital mexicana em 1998.

Escrito por marcia mec às 19h48
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